Guardachuvadelaura
julho 06, 2026
AOS RAMIROS, CAETANOS, JOÃO FRANCISCOS...
Nasci no ano que o Brasil ganhou a Copa pela primeira vez, na
Suécia. Eu já tinha uns 4 meses de ar. Será que meu pai ouviu pelo rádio e
festejou? Não era muito de futebol...
Na Copa de 62, o país comemorou Garrincha, o melhor em
campo. Eu não tomei conhecimento. E acho que não tínhamos televisão, ainda.
Emoções via rádio.
Então, a Copa de 70 no México. A minha Copa! Jogos pela
tevê, ao vivo, no chalé da Borges de Medeiros. O Castelinho suspendeu as aulas
par a gente acompanhar a final: o Brasil derrotou a Itália por 4 a 1. Pelé,
Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres fizeram os gols. E meu pai deixou que
a gente acompanhasse o foguetório e a carreata na cidade. Eufórica, corri até a
esquina da Julio.
Em 94 eu já era mãe... Um ano triste para os brasileiros com
a morte de Airton Senna, um mês antes da Copa. Mas Dunga levantou a taça e o
país glorificou o tetracampeonato!
Em 2002 voltei a estudar e fiz um pós. Os pais de vocês ainda estudavam e trabalhavam. E assistimos juntos a final contra a Alemanha: 2 X 0, com gols de Ronaldo, "o fenômeno". Pentacampeões, mais uma estrelinha na camiseta!
Agora, vocês curtiram a primeira copa, que talvez guardarão na memória, com a sala enfeitada de bandeirinhas. Porque vocês curtiram seus primeiros álbuns de figurinhas, porque a gente se esguelou empurrando o time em frente a tv. Tocamos as cornetas barulhentas. Mas o Brasil perdeu para a Noruega.
Vocês encheram os olhos?
É duro encarar a derrota quando a gente é criança.
"É fácil amar na vitória" - escreveu o ator Pedro
Cardoso no instagran. E é muito verdade.
Hoje a mídia e milhares de torcedores "batem" na
seleção.
"Não vale a pena chorar por isso", disse meu filho
ao seu filho.
"Isso" é a corrupção no futebol, as bets, e todo
um fosso escuro de lama e grana, que a gente desconhece.
Aprendemos com as decepções, os anos me ensinaram.
Até 2030, quem sabe? Um novo álbum, uma nova camiseta,
cornetas mais potentes e a sala cheia!
DO MEU BLOQUINHO
Um mar separa meu amigo de uma convivência maior. Uma relação que se iniciou aos treze anos. Continuou por cartas e cartões. Rio, São Paulo. Diminuíram, perdi o contato. Localizei pelas redes sociais. Depois, caiu fora. Não tinha estômago para tanta futilidade, creio. Seu último endereço, Unhos, em Portugal. Um homem vivido, inteligente, que sobreviveu às mudanças da existência. Tem muito o que contar. Gostaria tanto que escrevesse sobre tudo o que presenciou. Conseguimos marcar duas horas de encontro em Lisboa há 8 anos. Depois, um silêncio. Perdas de ambos lados. Quando busquei contato, não o localizei nem pelas redes. Mandei uma carta para seu último endereço. Foi encaminhada a Madrid. Voltamos a conversar por email, e agora pelo whatsapp. Está doente. Daquela enfermidade que a gente tem medo de nomear. Eu não sei o que dizer, não sei o que perguntar. Sei que és resiliente. Mas, a essência apartou, imposta pela distância. E tem essa droga de realidade que contamina minhas raivas e infecta a criatividade. Não posso passar adiante em um momento de busca pela cura. Também eu com minhas dores, pus e bactérias. E, a cada dia 6 no calendário, sou lembrada que metada minha, partiu.
AQUÁRIO
Collage Laura Peixoto
“Aos nascidos sob a ternura de Aquário
está destinado um grande serviço
à causa da alegria geral.
São assim os seres de Aquário,
o coração cheio de navios,
avançam de perfil, iluminados.
A partir das primeiras chuvas do inverno
belezas imprevistas surgirão nas ruas,
construídas por mãos aquarianas,
e uma inesperada flama
arderá no teu peito fatigado.
Os homens de ciência se aproximarão perigosamente
do grande descobrimento que o mundo ainda espera.
Vejo intensos espasmos de medo
no pâncreas dos poderosos.
Tuas virtudes secretas
estarão em maior evidência e poderio
durante a primavera.
O teu instante supremo coincidirá
com a colheita das framboesas.
Aproveita teu momento,
Antes que Urano te esconda das estrelas.
Anima-te, companheiro,
lança ao mar a rosa murcha
que levas na lapela
e recomeça a cantar,
os braços abertos,
essa canção de amor
que escondes no teu peito.”
(Thiago de Mello, ‘Horóscopo’, in “Meditação do Reino da
Pantera Azul”, 1966.)

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