março 11, 2026

MARIO IRARRÁZABAL


 “A linguagem da arte é aberta e metafórica: 

ao nos apresentar um mundo, 

ela nos abre para os outros. 

A arte é gratuita, divertida, amorosa. 

Ela quer nos surpreender e reencantar.”

MEMÓRIAS DE UM VERÃO


 Dias desses assisti um filme de direção sensível, minimalista. Talvez não tivesse a força que tem se não a atuação contida e discreta de Glenn Close: Memórias de um verão. No início você espera que algo aconteça. Mas não. É uma vida comum, uma relação delicada entre avó, neta e seu pai recolhido no luto. E como vamos sobrevivendo, como vamos nos permitindo cada um viver o seu luto, com a ausência de alguém querido não mais entre a gente.  E está. A dor de Sophia. A dor do pai, um rasgo que precisa ser costurado, uma ferida a ser curada com a reaproximação. Só o tempo para buscar a aceitação. É um filme descritivo e cuidadoso. Há camadas a descobrir nessas relações de reconciliações com a dor da perda. Uns vão achar vagaroso. Uns vão dormir. Uns vão se emocionar. E uns vão amar a natureza e o lugar deslumbrante. Nos créditos, baseado em fatos reais, a história da escritora finlandesa Tove Jansson. Filmes como esse são necessários para desacelerar as tensões impostas por um mundo falido, à beira de uma terceira guerra mundial.

Uma curiosidade: Glenn Close já foi indicada 8 vezes ao Oscar. Nunca ganhou. E tanta atriz ruim e nova já faturou. Tenho ranço de Hollywood... Aguardo a estreia do musical Sunset Boulevardt, quando Glenn vive Norma Desmond, estrela do cinema mudo.

PARÁBOLA




 Certa vez, um monge budista passou por anos de preparação até que lhe fosse permitido entrar no templo mais sagrado de uma cidade no Tibete.

Então, quando o sujeito finalmente teve autorização para entrar no templo, adivinhem o que foi que ele avistou em cima de um altar?

Ele viu uma escultura maravilhosa de um casal em plena relação sexual, com a mulher e o homem sentados de frente um para o outro.

“E por que essa imagem está num altar? – perguntou.

"Porque o encontro sexual  é um ato da criação”, disse o monge que varria o templo.

 

DO MEU BLOQUINHO


 Sonhava que fizera da minha casa, uma galeria de arte, um sebo e um café. Eu não dava conta de atender, virar o lado B do vinil no toca-discos, as pessoas murmuravam aflitas, as mãos se tocavam, os joelhos se tocavam e eu pedia olhem para os quadros. Todos à venda. A torta era boa, o salgado era ruim. Elas queriam champagne e eu respondia Só brut. Ninguém tirou o celular da bolsa até que um tocou dentro de uma mochila. E acordei. Cinco horas da manhã, e o meu dna simiesco já abanava o rabo e eu me vi pulando de árvore em árvore. Da Vinci... Vida bem vivida são as curtas que não chegam a penar decepções e sofrimentos.  Um bom sono é uma espécie de boa morte. E é libertadora.

MIA COUTO

 

Habito o mundo

quando me esqueço que existo.

De nada vale a geografia:

uma outra cidade me habita.


Quando vieram demolir os bairros

não encontrarão a casa que foi minha.

Essa casa mora em mim.

Essa ruína sou eu.

 

PENDURICALHOS SEMPRE EM ALTA

Magistrados do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul  receberam 840,2 milhões de reais em benefícios além do salário em 2025.

O valor é o maior desde o começo da série histórica disponível na plataforma DadosJusBR, iniciada em 2018. Em média, os magistrados vinculados ao tribunal estadual recebem 70,9 mil por mês, considerando subsídio-base, benefícios e descontos. O montante é 53% acima do teto constitucional, hoje fixado em 46,3 mil. 

 * Fonte: Matinal

 - E com todas essas regalias há juízes corruptos, gananciosamente corruptos.

 

março 04, 2026

AUTORIA DESCONHECIDA


 

“A arte não é um passatempo.

É um sacerdócio.”

O INSTANTE DECISIVO

Há fotografias históricas – e anônimas - como a dos operários sentados numa viga, na construção Empire State Building. Ou o registro de Alfred Eisenstaedt  ao flagrar o beijo do marinheiro americano em uma mulher na Times Square, por ocasião da rendição do Japão na Segunda Guerra.  A fotógrafa Dorothea Lange registrou um ícone da Grande Depressão americana: a mãe imigrante. E a menina afegã de Steve McCurry? E a foto de Evandro Teixeira que registra o exato momento em que a polícia agride com porrete um manifestante contra a ditadura brasileira?

Na maioria das vezes a gente nem sabe tudo que está por trás da imagem. Acha lindo ou comovente. Trágico ou desesperador. Fotografias contam a história da humanidade.

Em 1948, ao nascer do sol, um grupo de muçulmanas orava no alto da colina de Srinagar, na Caxemira. Hari Parbat é também um local considerado sagrado por outras religiões.

O fotógrafo Henri Cartier-Bresson cobria o início da Guerra Indo-Paquistanesa, e ao se deparar com aquela imagem percebeu a riqueza histórica e o senso de humanismo ali contido: capturou o exato momento das mulheres em prece, tendo as montanhas do Himalaia ao fundo.

Eu assistia ao comovente filme iraniano “Harud”, dirigido por Aamir Bashi, quando um dos personagens presenteia outro com um quadroque traz essa fotografia. 

Eu já conhecia a foto. Sabia a autoria, mas não os detalhes que o wikipedia revelou.

Um mês depois dessa foto, Cartier-Bresson registraria o fim do jejum de seis dias de Mahatma Ghandi. Sendo que noventa minutos após esse encontro, o líder indiano acabaria assassinado.

"Srinagar, Kashmir" integra a coleção do Moma, em Nova York e do Instituto de Arte de Minneapolis.

 

LUC DESCHEEMAEKER


 

DO MEU BLOQUINHO

Três loucos no mundo com o dedo mortal da ganância prestes a explodir o planeta. Deus não existe, por mais que insistam na crença. Existe a Natureza. Gaia. A Família também não existe. Caim matou Abel e detonou com o sentido cristão que reverencia esse núcleo esquizofrênico. Lembre-se que Édipo matou o pai e Medéia matou os filhos por vingança. E tudo continua do mesmo jeito, taí os noticiários para confirmar. E Pátria? Apenas limites geográficos nos mapas, um hino bobo e a triste bandeira. Essa então não me diz nada, absolutamente, nada mesmo. Não necessariamente nessa ordem, os três pilares do fascismo. Asco disso tudo. Aí tu vê, aqui no quintal, um sujeito mentiroso, preso por corrupção. Não pensou nas filhas, pensou na conta bancária. Sabe o que nunca acaba, nem mesmo com a morte?  A desonra, a reputação, gritava meu pai, depois de uma sumanta de cinta ao descobrir que eu havia roubado um sutiã na loja Hüffner, quando nem peito tinha nos meus doze anos.

 

6 ou 9?


 

JUNTOS, NO OSCAR!

Que vínculo é esse o da amizade?

No sentido real da palavra, porque as cobras estão soltas e às vezes a gente, cegueta, não distingue entre outros animais, digamos, caseiros. Como o gato, o cachorro e até a tartaruga – a cobra se vale de tantos disfarces. 

Pensei nisso quando li que o ator Wagner Moura vai levar seu amigo de infância, e de vários filmes realizados, para assistir juntos a cerimônia do Oscar.

Eu me emocionei.

E entenderia melhor se Wagner fosse aquariano. Mas é do signo de Câncer. Justifica também.



 Amizade e Lealdade andam juntas. São filhas da mesma mãe: dona Confiança.

Que esses dois meninos, criados nos quintais de Salvador, urrem de alegria ao conquistarem o Oscar. E se não, já valeu mais essa emoção parceira.

fevereiro 25, 2026

PETER BROOK *

Photo by Henry Cartier-Bresson
 

“A característica de todas as formas de ditadura

é que a cultura se congela.”

*diretor teatral em “Fios do tempo”

A TUA AÇÃO!


 Outra oficina que super recomendo!

PERDEU, MANÉ


 

1864-2026

“Acabei de receber notícias da frente de batalha — ainda não há sinais de movimento, mas ambos os lados permanecem em alerta constante, esperando que algo aconteça.

Ó Mãe, pensar que em breve teremos aqui o que já vi tantas vezes, as terríveis cargas, trens e barcos cheios de jovens pobres, ensanguentados, pálidos e feridos — pois é exatamente isso que teremos, e em breve." - escreve o poeta americano Walt Whitman à sua mãe, em 22 de março de 1864.

"Vejo todos os pequenos sinais, os preparativos nos hospitais, etc.; é terrível quando se pensa nisso.

 Às vezes, me lembro das cenas que presenciei: a chegada dos feridos após uma batalha, e as cenas no campo de batalha também, e mal consigo acreditar nas minhas próprias lembranças.

Que coisa terrível é a guerra!"


"Mãe, parece que não são homens, mas um bando de demônios e carniceiros se massacrando uns aos outros.”


* Ontem, 4 anos de guerra entre a Russia e a Ucrânia. Em pleno seculo XXI, a ganância por terra & poder continua em quase todos continentes.

 

OFICINA LITERÁRIA


 No ano passado, participei de uma oficina literária do prof. Fischer.  Foi o que de melhor aconteceu no ano.  Agora, a proposta dessa do Machado e Borges. Super indico para quem quer escrever ou já escreve.


Há maneiras de escrever. 

Há maneiras de descrever...

ATÉ QUANDO, ESTRELA?


Esses dias mais uma casa antiga foi demolida no centro de Estrela. Ontem vi essa e não resisti à sua resiliência histórica. Já foi o açougue Cabeça de boi, uma floricultura...

Em 1911, Nicolau Müssnich era o intendente de Estrela, num Rio Grande do Sul governado por Carlos Barbosa Gonçalves. (fonte: "Estrela, ontem e hoje ", de José Alfredo Schierholt.)

Em 1911, fundaram o Clube Esportivo Lajeadense.

Em 1911, o Brasil vivia a Primeira República, com Hermes Fonseca na presidencia.

Em 1911, o escritor negro Lima Barreto publicava em formato de folhetim, O triste fim de Policarpo Quaresma, no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro.

Em 1911, o primeiro surto de poliomelite no país.

Em 1911, a Igreja Assembléia de Deus chegava ao Brasil pelas suecas Sara Sofia Lovisa Ber e Frida Vingren. (fonte: "Malvina", Libelula Editorial.)



CRUIZCREDO


 

TEMPO DE HOMENAGEM?

O cartório de Estrela, RS, homenageou o quarto Presidente da Ditadura Militar no Brasil, expondo na parede o registro do casamento com Lucy Markus, de Estrela.

"É de bom tom?"  questionaria a personagem Keila Mellman vivido por Ilana Kaplan, nas redes sociais...

 


Uma lista de 89 pessoas, incluindo opositores, foram mortos sob tortura, assassinados ou desaparecidos forçadamente durante a gestão de Geisel (1974-1979) e a de seu sucessor, João Figueiredo.

Um memorando da CIA revelou que o general Ernesto Geisel autorizou, logo no início de seu mandato, a continuação de execuções sumárias de "subversivos perigosos" pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE).

"É de bom tom?"

DO MEU BLOQUINHO


 O CINEMA ENSINA
  “Quanto mais tempo você vive na sombra de alguém, mais tempo demora para você ter a sua.” Personagem na série Lincoln Lawyer.  Penso tanto sobre isso. As pessoas se conformam com a sombra dos outros. VOLTA AS AULAS? Assistindo um filme e me deparo com essa frase da personagem Maggie, que define bem o que muitas alunas ou alunos já começaram a viver nas escolas: É uma cruzada de meninas cruéis nas redes sociais. E as mães babacas são piores ainda. Volta ao bullying 2026... DÈJÁ VU Revejo um filme de 2003. Uma comédia romântica, com atores famosos, alguns prêmios. Não lembro nada, mas tenho a sensação de jantar sobras de algo requentado. Depois de meia hora, desisto.  O filme é arrastado… previsível, talvez?  Todos os atores ainda novos. Atrizes novas. O cinema congelou a todos, só eu que não.  Preguiça de ver o que visto foi.   

CARLA PEREZ SEM NOÇÃO?

Passou o carnaval, a Acadêmicos de Niterói desabou do Grupo Especial, no carnaval do Rio. Era previsível. Minha afilhada disse que eu havia certado na "leitura dos buzios"... Assim como  vi a Viradouros campeã. E por mais q eu goste da Rita Lee, pensei que poderia ter caído a Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas esse desfile da escola de samba de Niterói foi criativa em todas suas  alegorias e adereços, no samba-enredo e em tudo. A Globo ficou perplexa e tentou desimportar o desfile que enaltecia a história de Lula. 


A branquitude sorridente da Sinhá em sua liteira...
Pediu desculpas, depois.

 

fevereiro 12, 2026

PAUL ÉLUARD

Lee Miller
 

LIBERTÉ

Nos meus cadernos de escola
Nas carteiras e nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página em branco
Pedra, papel, sangue ou cinza
Escrevo teu nome

Em toda imagem dourada
E nas armaduras dos guerreiros
E nas coroas dos reis
Escrevo teu nome

Na floresta e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Nos ecos de minha infância
Escrevo teu nome 

Nas maravilhas da noite
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Em todos meus trapos azuis
No lago solar mofado
No lago da lua viva
Escrevo teu nome

Nos campos, no horizonte
Nas asas dos pássaros
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

A cada sopro da aurora
No mar, nos barcos
Na montanha enlouquecida
Escrevo teu nome

Nas espumas das nuvens
No suor da tempestade
Na chuva densa e insípida
Escrevo teu nome

Nas formas cintilantes
Nos sinos de várias cores
Em toda verdade física
Escrevo teu nome

Nos caminhos despertos
Nas estradas vistosas
Ou nas praças transbordantes
Escrevo teu nome

Na lâmpada que acende
Na lâmpada que apaga
Nas minhas razões combinadas
Escrevo teu nome

Na fruta cortada ao meio
Do espelho do meu quarto
Na minha cama vazia
Escrevo teu nome

No meu cão guloso e terno
em suas orelhas atentas
Nas suas patas desajeitadas
Escrevo teu nome

Na soleira da minha porta
Nos objetos familiares
Nas ondas de fogo sagrado
Escrevo teu nome

Em cada corpo disposto
Na fronte de meus amigos
Em cada mão estendida
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Em lábios delicados

Bem acima do silêncio

Escrevo teu nome

Em meus abrigos destruídos
Em meus faróis quebrados
Nas paredes de meu tédio
Escrevo teu nome

Sobre ausências sem desejo
Sobre a solidão toda nua
Nos degraus da morte
Escrevo teu nome

Sobre a saúde restaurada
Sobre o risco desaparecido
Sobre a esperanças sem memória
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Eu recomeço minha vida
Eu nasci para te conhecer
E para te chamar
Liberdade.


"O MENINO E O GATO"


A escritora Morgana Domênica Hattge escreveu e o artista Alessandro Cenci ilustrou o livro que narra a história de amizade entre um menino e um gatinho. 

Adquira com antecedência, em pré-venda, no site da Libelula Editorial. No Instagran @libelulalivros. Apoie a literatura no Vale do Taquari!

“HOMENS: PAREM DE NOS MATAR!”

O RS contabiliza doze feminicídios em 2026. As mulheres gaúchas clamam por socorro, que nunca virá.

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul foi palco de um momento importante para a segurança das mulheres gaúchas, nessa última terça-feira (10), quando a Comissão Externa da Câmara dos Deputados apresentou o seu relatório final sobre os feminicídios no estado.

“O documento é um diagnóstico doloroso do desmonte das redes de proteção no RS e um grito por socorro diante da misoginia homicida que já vitimou doze mulheres somente este ano. Faltam tornozeleiras, faltam delegacias, faltam instrumentos. Mas o governador Eduardo tem a cara de pau de apontar 2025 como o “o ano mais seguro da história gaúcha”. “

Foram oitenta feminicídios em 2025, 10% a mais do que em 2024.

Somam-se 264 tentativas de feminicídio, mais 31 mil ameaças, além de 52,7 mil ocorrências de lesão corporal e outras 18 mil ocorrências de estupro, conforme reportagem da CNN Brasil.

Somente no mês de janeiro, onze novos feminicídios foram registrados no estado, repetindo padrões de crueldade vistos no ano anterior.

A vereadora do PT, Rosane Cardoso, se fez presente. Mal sabia ela que nesse meio tempo, aqui no nosso quintal, em Santa Clara do Sul, no Vale do Taquari, Elton Leuse, 58, matava a tiros, Juliane Cristine Schuster, 30, sua ex-companheira, enquanto a filha de cinco anos conseguia se trancar no quarto. Como  conseguiu, tão pequena, fugir do perigo? A outra filha não estava em casa.  

Leuse tinha antecedentes criminais, Juliane tinha medidas protetivas... Falhou a polícia?

O assassino também atropelou e matou o ex-companheiro dela, Fabiano Luís Fleck, 37. E atirou no atual que está mal no hospital de Lajeado.

O assassino se suicidou na frente do prédio da Brigada Militar, de Santa Clara do Sul.

Juliane é apenas um número na estatística do Estado: o 13º feminicídio do ano.

A Casa de Passagem do Vale pede ajuda, pede voluntariado.


LEE MILLER

Assisti “Lee”, a cinebiografia da fotojornalista Lee Miller.  Um filme bacana, honesto e com uma atriz que gosto muito, Kate Winslet. Nos dois últimos anos da 2ª Guerra, Lee que fazia fotos para a revista Vogue,  conseguiu um passe para seguir para o front. São delas algumas fotos bem conhecidas que mostram os judeus sobreviventes, ou as pilhas de cadáveres.


No filme, uma cena mostra aviões americanos, após libertarem Paris dos alemães, jogando milhares de papéis. Neles, versos do poeta Paul Éluard: “Liberdade”.

Parei o filme e fui para o Wikipedia:

"Liberté" carrega consigo o peso da História. Escrito em 1942, com o título "Une Seule Pensée" (Um Único Pensamento), esse texto foi transportado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra.

Em 1943, traduzido para vários idiomas, o poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus da Europa conflagrada.


O responsável por contrabandear essa preciosidade francesa para a Inglaterra foi um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Em reconhecimento a essa proeza, Dias foi condecorado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito, em 1998.

 Bacana, né? Agora procura pelo filme e mais fotos de Lee Miller .


 

#TBT CARNAVAL


 

BIBLIOTECA HUMANA

 

 

Na Dinamarca, desde o ano 2020, existe uma biblioteca onde não pegamos livros emprestados.

Mas pessoas!

A ideia de criar um Jardim de Leitura para a Biblioteca Humana surgiu com Ronni Abergel, com apoio da arquiteta Tina Vilfan e da cidade de Copenhague.


E surgiu para combater preconceitos, para falar sobre diversidades. Refugiados. Doentes. Fracassados. Sobreviventes de guerras. Ex-presidiarios. 
Pessoas estigmatizadas como se fossem títulos rasos, e as palavras pequenas demais para narrar vidas inteiras.



Então, durante 30 minutos alguém senta à nossa frente para contar a sua própria história, que nunca entraremos em algum livro.

Ao ouvir essas histórias, talvez o leitor, ou melhor, o ouvidor, se dê conta que essa era uma pessoa com sonhos e com vontade de mudar. E talvez, a gente mude  nossos preconceitos.

A vida não se resume a um título. À um rótulo.



Li sobre essa biblioteca no Instagran. Em tempos, tive vontade de sentar no banco da praça da minha cidade e pedir para alguém contar a sua vivência.  Nunca fiz. Já carrego legenda desde que moro aqui.



CARTA AO CEO DO BRADESCO




Seu Marcelo,

meu marido foi cliente antigo da agência Bradesco, em Estrela, RS. Não consegui a informação de que ano era a sua conta. É um entra e sai de funcionários naquela agência e ninguém sabe dizer nada. Vamos pensar que a sua conta foi aberta nos anos 80. Vamos pensar em quanto ele acreditou nessa merda de banco onde recebia sua aposentadoria, fazia aplicações das merrécas. Por falar nisso, vi na internet q tu ganha cerca de 26 milhões e meio. Por ano, né?  Tem que ser. Vi que o Bradesco faturou 26% a mais do que em 2024. É dinheiro pra caralho, né? Mas voltando ao meu marido que não teve tempo de acertar as contas e seguros que vocês descontaram dele, mas que afirmam q era só em caso de acidente, o que não foi. Sofreu 5 meses com um câncer de pulmão q se tivesse a sorte de encontrar um pneumologista decente teria visto que o cancêr já existia desde 2021. Mas aí, seu Marcelo, tua funcionária antiga disse que pelo tipo de cartão q ele tinha, coisa antiga hein?, teria um seguro. Ela foi transferida e o seguro tão certo virou fumaça. A tal funcionária antiga pediu que assim q o dinheiro fosse debitado, a gente fizesse uma aplicação com ela. Deve estar esperando como eu... Seu Marcelo, eu entrei em contato com os canais competentes do Bradesco, tenho tudo printado, mas  cadê o dinheiro, orra? 

O que vocês fazem com os clientes justifica os lucros desse banco no qual tu é o CEO.  Meu marido morreu no dia 6 de junho do ano passado. Tenho printado que um dinheiro foi depositado em 20 de outubro de 2025. Nesse meio tempo o gerente e a moça que cuidava dessa conta foram demitidos. Tentei todos os canais que vocês dizem atender com esses robos de merda. Nem para denunciar ladroeira consegui.  O Bradesco, mesmo em posse da certidão de óbito do meu marido, continua cobrando uma quantia q a gente até agora não entende de onde saiu.  O gerente atual está vendo.... 

O Itaú não deve ser diferente. Desconta 14 reais todo o mês da minha conta, sem me consultar ou dizer exatamente pra quê. Eu tenho nojo de banco. Sempre tive. Porque o desrespeito com os clientes é muito grande. Horários, filas, e agora com o celular teus funcionários ficam à toa enquanto a gente aguarda a boa vontade deles. Espero que, se algum leitor passe os olhos por aqui, saiba que eles estão phudidos mantendo conta no Bradesco. No Itaú. No Banrisul. No BB. Na Caixa. Na porra toda que é o sistema bancário desse país. 

"Ordem e Progresso", um dos pilares de vocês? Pega esse pilar e enfia tu sabe onde.



fevereiro 06, 2026

A LINHA



 

 

Quando compreendemos que poderia ser câncer,
deitei-me ao seu lado durante a noite,
a palma da mão repousada no sulco do seu peito,
a nervura de uma folha. 

Não havia possibilidade
de fazer amor: no fundo do meu corpo, aquele
pequeno nódulo duro. 

À meia-luz da minha meia-vida,
minha mão na bela fissura afiada do seu peito, 

o vale da sombra da morte,
só existia o momento presente e, enquanto
você dormia no silêncio, 

eu o observei como quem observa
um recém-nascido, consciente a cada instante 

do milagre, da linha que fora cruzada
para fora da escuridão.

 

Sharon Olds, tradução de Nelson Santander


AH, OS COVARDES...


 Jornal A Hora - Lajeado

* Leitores reclamaram que estava dificil ler na postagem. Transcrevo:

Os novos covardes


Vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil dizer tudo e nunca foi tão difícil sustentar qualquer coisa.

As redes sociais “pariram” uma nova espécie humana: 

o corajoso digital.

Ele surge implacável por detrás de uma tela, vociferando verdades absolutas, distribuindo ofensas, julgamentos morais e sentenças definitivas. 

Ele não hesita, não pondera, não escuta. Ele é valente, destemido.

Esses novos corajosos escrevem com conhecimento de causa e com a segurança de quem jamais será interrompido. 

Eles não enfrentam o silêncio constrangedor de uma plateia, uma réplica imediata, nem o olhar do outro que questiona, que discorda ouque simplesmente não se intimida. 


São os “leões do teclado”, os “gladiadores de WhatsApp”. Avançam com ferocidade, protegidos pelo escudo luminoso da tela.

O fenômeno é recente e curioso, porque subverte valores antigos. 

Coragem, outrora, exigia presença, pressupunha risco. 

Ser corajoso implicava assumir o peso da própria palavra diante de alguém que podia contestá-la. 

O confronto de ideias era um exercício civilizatório. 

Quando a gente falava, tinha que ouvir e podia até discordar, buscando, quem sabe, um consenso mínimo. 

Hoje é diferente, a coragem foi terceirizada à tecnologia. Para exercê-la, no mais das vezes, basta uma conexão estável e alguma dose de agressividade mal digerida.

O novo covarde, entretanto, não se reconhece como tal. Ele se vê como livre, autêntico, alguém que não se sujeita ao “politicamente correto”. 

Acredita que grosseria é sinônimo de franqueza e que opinião só tem valor se vier acompanhada de ofensa.

Curiosamente, quando convidado ao debate real, aquele debate feito sem emojis, sem bloqueios e sem a opção de sair do grupo, o novo covarde evapora, some, silencia, se ausenta. 

Nada o constrange mais do que o diálogo olho no olho. 

A tela lhe dá coragem, enquanto a presença lhe inflige pânico. 

Afinal, pessoas reais não aceitam ser reduzidas a rótulos. 

Elas respondem, argumentam, olham de volta, buscam fundamentos. 

E isso exige algo que o corajoso digital não possui: responsabilidade pelo que diz.

Há, portanto, uma ironia amarga nesse novo heroísmo. 

Nunca se falou tanto em liberdade de expressão e em autenticidade. 

Nunca se praticou tão pouco o diálogo. 

A praça pública virou feed, o debate de ideias transformou-se em ataque, a discordância, em cancelamento. 

O outro deixou de ser interlocutor e passou a ser inimigo.

Talvez seja hora de resgatar um conceito antigo, quase esquecido, o conceito da coragem verdadeira, aquela que não grita, que não se esconde. 

A coragem que aceita o risco do contraditório e reconhece que ideias só amadurecem quando expostas à luz, nunca à sombra confortável de uma tela


Os novos covardes continuarão rugindo, mas basta desligar o Wi-Fi para perceber que o leão que rugia estrondoso nunca foi mais que um gatinho inofensivo que, quando confrontado, esconde-se na escuridão do seu eu.


* Só discordo em uma coisa: não gatinho, mas ratos que saem do esgoto da estupidez e encontram seus pares à luz do dia... Centenas deles.



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