fevereiro 25, 2026

PETER BROOK *

Photo by Henry Cartier-Bresson
 

“A característica de todas as formas de ditadura

é que a cultura se congela.”

*diretor teatral em “Fios do tempo”

A TUA AÇÃO!


 Outra oficina que super recomendo!

PERDEU, MANÉ


 

1864-2026

“Acabei de receber notícias da frente de batalha — ainda não há sinais de movimento, mas ambos os lados permanecem em alerta constante, esperando que algo aconteça.

Ó Mãe, pensar que em breve teremos aqui o que já vi tantas vezes, as terríveis cargas, trens e barcos cheios de jovens pobres, ensanguentados, pálidos e feridos — pois é exatamente isso que teremos, e em breve." - escreve o poeta americano Walt Whitman à sua mãe, em 22 de março de 1864.

"Vejo todos os pequenos sinais, os preparativos nos hospitais, etc.; é terrível quando se pensa nisso.

 Às vezes, me lembro das cenas que presenciei: a chegada dos feridos após uma batalha, e as cenas no campo de batalha também, e mal consigo acreditar nas minhas próprias lembranças.

Que coisa terrível é a guerra!"


"Mãe, parece que não são homens, mas um bando de demônios e carniceiros se massacrando uns aos outros.”


* Ontem, 4 anos de guerra entre a Russia e a Ucrânia. Em pleno seculo XXI, a ganância por terra & poder continua em quase todos continentes.

 

OFICINA LITERÁRIA


 No ano passado, participei de uma oficina literária do prof. Fischer.  Foi o que de melhor aconteceu no ano.  Agora, a proposta dessa do Machado e Borges. Super indico para quem quer escrever ou já escreve.


Há maneiras de escrever. 

Há maneiras de descrever...

ATÉ QUANDO, ESTRELA?


Esses dias mais uma casa antiga foi demolida no centro de Estrela. Ontem vi essa e não resisti à sua resiliência histórica. Já foi o açougue Cabeça de boi, uma floricultura...

Em 1911, Nicolau Müssnich era o intendente de Estrela, num Rio Grande do Sul governado por Carlos Barbosa Gonçalves. (fonte: "Estrela, ontem e hoje ", de José Alfredo Schierholt.)

Em 1911, fundaram o Clube Esportivo Lajeadense.

Em 1911, o Brasil vivia a Primeira República, com Hermes Fonseca na presidencia.

Em 1911, o escritor negro Lima Barreto publicava em formato de folhetim, O triste fim de Policarpo Quaresma, no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro.

Em 1911, o primeiro surto de poliomelite no país.

Em 1911, a Igreja Assembléia de Deus chegava ao Brasil pelas suecas Sara Sofia Lovisa Ber e Frida Vingren. (fonte: "Malvina", Libelula Editorial.)



CRUIZCREDO


 

TEMPO DE HOMENAGEM?

O cartório de Estrela, RS, homenageou o quarto Presidente da Ditadura Militar no Brasil, expondo na parede o registro do casamento com Lucy Markus, de Estrela.

"É de bom tom?"  questionaria a personagem Keila Mellman vivido por Ilana Kaplan, nas redes sociais...

 


Uma lista de 89 pessoas, incluindo opositores, foram mortos sob tortura, assassinados ou desaparecidos forçadamente durante a gestão de Geisel (1974-1979) e a de seu sucessor, João Figueiredo.

Um memorando da CIA revelou que o general Ernesto Geisel autorizou, logo no início de seu mandato, a continuação de execuções sumárias de "subversivos perigosos" pelo Centro de Inteligência do Exército (CIE).

"É de bom tom?"

DO MEU BLOQUINHO


 O CINEMA ENSINA
  “Quanto mais tempo você vive na sombra de alguém, mais tempo demora para você ter a sua.” Personagem na série Lincoln Lawyer.  Penso tanto sobre isso. As pessoas se conformam com a sombra dos outros. VOLTA AS AULAS? Assistindo um filme e me deparo com essa frase da personagem Maggie, que define bem o que muitas alunas ou alunos já começaram a viver nas escolas: É uma cruzada de meninas cruéis nas redes sociais. E as mães babacas são piores ainda. Volta ao bullying 2026... DÈJÁ VU Revejo um filme de 2003. Uma comédia romântica, com atores famosos, alguns prêmios. Não lembro nada, mas tenho a sensação de jantar sobras de algo requentado. Depois de meia hora, desisto.  O filme é arrastado… previsível, talvez?  Todos os atores ainda novos. Atrizes novas. O cinema congelou a todos, só eu que não.  Preguiça de ver o que visto foi.   

CARLA PEREZ SEM NOÇÃO?

Passou o carnaval, a Acadêmicos de Niterói desabou do Grupo Especial, no carnaval do Rio. Era previsível. Minha afilhada disse que eu havia certado na "leitura dos buzios"... Assim como  vi a Viradouros campeã. E por mais q eu goste da Rita Lee, pensei que poderia ter caído a Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas esse desfile da escola de samba de Niterói foi criativa em todas suas  alegorias e adereços, no samba-enredo e em tudo. A Globo ficou perplexa e tentou desimportar o desfile que enaltecia a história de Lula. 


A branquitude sorridente da Sinhá em sua liteira...
Pediu desculpas, depois.

 

fevereiro 12, 2026

PAUL ÉLUARD

Lee Miller
 

LIBERTÉ

Nos meus cadernos de escola
Nas carteiras e nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página em branco
Pedra, papel, sangue ou cinza
Escrevo teu nome

Em toda imagem dourada
E nas armaduras dos guerreiros
E nas coroas dos reis
Escrevo teu nome

Na floresta e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Nos ecos de minha infância
Escrevo teu nome 

Nas maravilhas da noite
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Em todos meus trapos azuis
No lago solar mofado
No lago da lua viva
Escrevo teu nome

Nos campos, no horizonte
Nas asas dos pássaros
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

A cada sopro da aurora
No mar, nos barcos
Na montanha enlouquecida
Escrevo teu nome

Nas espumas das nuvens
No suor da tempestade
Na chuva densa e insípida
Escrevo teu nome

Nas formas cintilantes
Nos sinos de várias cores
Em toda verdade física
Escrevo teu nome

Nos caminhos despertos
Nas estradas vistosas
Ou nas praças transbordantes
Escrevo teu nome

Na lâmpada que acende
Na lâmpada que apaga
Nas minhas razões combinadas
Escrevo teu nome

Na fruta cortada ao meio
Do espelho do meu quarto
Na minha cama vazia
Escrevo teu nome

No meu cão guloso e terno
em suas orelhas atentas
Nas suas patas desajeitadas
Escrevo teu nome

Na soleira da minha porta
Nos objetos familiares
Nas ondas de fogo sagrado
Escrevo teu nome

Em cada corpo disposto
Na fronte de meus amigos
Em cada mão estendida
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Em lábios delicados

Bem acima do silêncio

Escrevo teu nome

Em meus abrigos destruídos
Em meus faróis quebrados
Nas paredes de meu tédio
Escrevo teu nome

Sobre ausências sem desejo
Sobre a solidão toda nua
Nos degraus da morte
Escrevo teu nome

Sobre a saúde restaurada
Sobre o risco desaparecido
Sobre a esperanças sem memória
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Eu recomeço minha vida
Eu nasci para te conhecer
E para te chamar
Liberdade.


"O MENINO E O GATO"


A escritora Morgana Domênica Hattge escreveu e o artista Alessandro Cenci ilustrou o livro que narra a história de amizade entre um menino e um gatinho. 

Adquira com antecedência, em pré-venda, no site da Libelula Editorial. No Instagran @libelulalivros. Apoie a literatura no Vale do Taquari!

“HOMENS: PAREM DE NOS MATAR!”

O RS contabiliza doze feminicídios em 2026. As mulheres gaúchas clamam por socorro, que nunca virá.

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul foi palco de um momento importante para a segurança das mulheres gaúchas, nessa última terça-feira (10), quando a Comissão Externa da Câmara dos Deputados apresentou o seu relatório final sobre os feminicídios no estado.

“O documento é um diagnóstico doloroso do desmonte das redes de proteção no RS e um grito por socorro diante da misoginia homicida que já vitimou doze mulheres somente este ano. Faltam tornozeleiras, faltam delegacias, faltam instrumentos. Mas o governador Eduardo tem a cara de pau de apontar 2025 como o “o ano mais seguro da história gaúcha”. “

Foram oitenta feminicídios em 2025, 10% a mais do que em 2024.

Somam-se 264 tentativas de feminicídio, mais 31 mil ameaças, além de 52,7 mil ocorrências de lesão corporal e outras 18 mil ocorrências de estupro, conforme reportagem da CNN Brasil.

Somente no mês de janeiro, onze novos feminicídios foram registrados no estado, repetindo padrões de crueldade vistos no ano anterior.

A vereadora do PT, Rosane Cardoso, se fez presente. Mal sabia ela que nesse meio tempo, aqui no nosso quintal, em Santa Clara do Sul, no Vale do Taquari, Elton Leuse, 58, matava a tiros, Juliane Cristine Schuster, 30, sua ex-companheira, enquanto a filha de cinco anos conseguia se trancar no quarto. Como  conseguiu, tão pequena, fugir do perigo? A outra filha não estava em casa.  

Leuse tinha antecedentes criminais, Juliane tinha medidas protetivas... Falhou a polícia?

O assassino também atropelou e matou o ex-companheiro dela, Fabiano Luís Fleck, 37. E atirou no atual que está mal no hospital de Lajeado.

O assassino se suicidou na frente do prédio da Brigada Militar, de Santa Clara do Sul.

Juliane é apenas um número na estatística do Estado: o 13º feminicídio do ano.

A Casa de Passagem do Vale pede ajuda, pede voluntariado.


LEE MILLER

Assisti “Lee”, a cinebiografia da fotojornalista Lee Miller.  Um filme bacana, honesto e com uma atriz que gosto muito, Kate Winslet. Nos dois últimos anos da 2ª Guerra, Lee que fazia fotos para a revista Vogue,  conseguiu um passe para seguir para o front. São delas algumas fotos bem conhecidas que mostram os judeus sobreviventes, ou as pilhas de cadáveres.


No filme, uma cena mostra aviões americanos, após libertarem Paris dos alemães, jogando milhares de papéis. Neles, versos do poeta Paul Éluard: “Liberdade”.

Parei o filme e fui para o Wikipedia:

"Liberté" carrega consigo o peso da História. Escrito em 1942, com o título "Une Seule Pensée" (Um Único Pensamento), esse texto foi transportado clandestinamente da França, ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra.

Em 1943, traduzido para vários idiomas, o poema foi distribuído como um panfleto, lançado por aviões aliados nos céus da Europa conflagrada.


O responsável por contrabandear essa preciosidade francesa para a Inglaterra foi um brasileiro, o pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003). Em reconhecimento a essa proeza, Dias foi condecorado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito, em 1998.

 Bacana, né? Agora procura pelo filme e mais fotos de Lee Miller .


 

#TBT CARNAVAL


 

BIBLIOTECA HUMANA

 

 

Na Dinamarca, desde o ano 2020, existe uma biblioteca onde não pegamos livros emprestados.

Mas pessoas!

A ideia de criar um Jardim de Leitura para a Biblioteca Humana surgiu com Ronni Abergel, com apoio da arquiteta Tina Vilfan e da cidade de Copenhague.


E surgiu para combater preconceitos, para falar sobre diversidades. Refugiados. Doentes. Fracassados. Sobreviventes de guerras. Ex-presidiarios. 
Pessoas estigmatizadas como se fossem títulos rasos, e as palavras pequenas demais para narrar vidas inteiras.



Então, durante 30 minutos alguém senta à nossa frente para contar a sua própria história, que nunca entraremos em algum livro.

Ao ouvir essas histórias, talvez o leitor, ou melhor, o ouvidor, se dê conta que essa era uma pessoa com sonhos e com vontade de mudar. E talvez, a gente mude  nossos preconceitos.

A vida não se resume a um título. À um rótulo.



Li sobre essa biblioteca no Instagran. Em tempos, tive vontade de sentar no banco da praça da minha cidade e pedir para alguém contar a sua vivência.  Nunca fiz. Já carrego legenda desde que moro aqui.



CARTA AO CEO DO BRADESCO




Seu Marcelo,

meu marido foi cliente antigo da agência Bradesco, em Estrela, RS. Não consegui a informação de que ano era a sua conta. É um entra e sai de funcionários naquela agência e ninguém sabe dizer nada. Vamos pensar que a sua conta foi aberta nos anos 80. Vamos pensar em quanto ele acreditou nessa merda de banco onde recebia sua aposentadoria, fazia aplicações das merrécas. Por falar nisso, vi na internet q tu ganha cerca de 26 milhões e meio. Por ano, né?  Tem que ser. Vi que o Bradesco faturou 26% a mais do que em 2024. É dinheiro pra caralho, né? Mas voltando ao meu marido que não teve tempo de acertar as contas e seguros que vocês descontaram dele, mas que afirmam q era só em caso de acidente, o que não foi. Sofreu 5 meses com um câncer de pulmão q se tivesse a sorte de encontrar um pneumologista decente teria visto que o cancêr já existia desde 2021. Mas aí, seu Marcelo, tua funcionária antiga disse que pelo tipo de cartão q ele tinha, coisa antiga hein?, teria um seguro. Ela foi transferida e o seguro tão certo virou fumaça. A tal funcionária antiga pediu que assim q o dinheiro fosse debitado, a gente fizesse uma aplicação com ela. Deve estar esperando como eu... Seu Marcelo, eu entrei em contato com os canais competentes do Bradesco, tenho tudo printado, mas  cadê o dinheiro, orra? 

O que vocês fazem com os clientes justifica os lucros desse banco no qual tu é o CEO.  Meu marido morreu no dia 6 de junho do ano passado. Tenho printado que um dinheiro foi depositado em 20 de outubro de 2025. Nesse meio tempo o gerente e a moça que cuidava dessa conta foram demitidos. Tentei todos os canais que vocês dizem atender com esses robos de merda. Nem para denunciar ladroeira consegui.  O Bradesco, mesmo em posse da certidão de óbito do meu marido, continua cobrando uma quantia q a gente até agora não entende de onde saiu.  O gerente atual está vendo.... 

O Itaú não deve ser diferente. Desconta 14 reais todo o mês da minha conta, sem me consultar ou dizer exatamente pra quê. Eu tenho nojo de banco. Sempre tive. Porque o desrespeito com os clientes é muito grande. Horários, filas, e agora com o celular teus funcionários ficam à toa enquanto a gente aguarda a boa vontade deles. Espero que, se algum leitor passe os olhos por aqui, saiba que eles estão phudidos mantendo conta no Bradesco. No Itaú. No Banrisul. No BB. Na Caixa. Na porra toda que é o sistema bancário desse país. 

"Ordem e Progresso", um dos pilares de vocês? Pega esse pilar e enfia tu sabe onde.



fevereiro 06, 2026

A LINHA



 

 

Quando compreendemos que poderia ser câncer,
deitei-me ao seu lado durante a noite,
a palma da mão repousada no sulco do seu peito,
a nervura de uma folha. 

Não havia possibilidade
de fazer amor: no fundo do meu corpo, aquele
pequeno nódulo duro. 

À meia-luz da minha meia-vida,
minha mão na bela fissura afiada do seu peito, 

o vale da sombra da morte,
só existia o momento presente e, enquanto
você dormia no silêncio, 

eu o observei como quem observa
um recém-nascido, consciente a cada instante 

do milagre, da linha que fora cruzada
para fora da escuridão.

 

Sharon Olds, tradução de Nelson Santander


AH, OS COVARDES...


 Jornal A Hora - Lajeado

* Leitores reclamaram que estava dificil ler na postagem. Transcrevo:

Os novos covardes


Vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil dizer tudo e nunca foi tão difícil sustentar qualquer coisa.

As redes sociais “pariram” uma nova espécie humana: 

o corajoso digital.

Ele surge implacável por detrás de uma tela, vociferando verdades absolutas, distribuindo ofensas, julgamentos morais e sentenças definitivas. 

Ele não hesita, não pondera, não escuta. Ele é valente, destemido.

Esses novos corajosos escrevem com conhecimento de causa e com a segurança de quem jamais será interrompido. 

Eles não enfrentam o silêncio constrangedor de uma plateia, uma réplica imediata, nem o olhar do outro que questiona, que discorda ouque simplesmente não se intimida. 


São os “leões do teclado”, os “gladiadores de WhatsApp”. Avançam com ferocidade, protegidos pelo escudo luminoso da tela.

O fenômeno é recente e curioso, porque subverte valores antigos. 

Coragem, outrora, exigia presença, pressupunha risco. 

Ser corajoso implicava assumir o peso da própria palavra diante de alguém que podia contestá-la. 

O confronto de ideias era um exercício civilizatório. 

Quando a gente falava, tinha que ouvir e podia até discordar, buscando, quem sabe, um consenso mínimo. 

Hoje é diferente, a coragem foi terceirizada à tecnologia. Para exercê-la, no mais das vezes, basta uma conexão estável e alguma dose de agressividade mal digerida.

O novo covarde, entretanto, não se reconhece como tal. Ele se vê como livre, autêntico, alguém que não se sujeita ao “politicamente correto”. 

Acredita que grosseria é sinônimo de franqueza e que opinião só tem valor se vier acompanhada de ofensa.

Curiosamente, quando convidado ao debate real, aquele debate feito sem emojis, sem bloqueios e sem a opção de sair do grupo, o novo covarde evapora, some, silencia, se ausenta. 

Nada o constrange mais do que o diálogo olho no olho. 

A tela lhe dá coragem, enquanto a presença lhe inflige pânico. 

Afinal, pessoas reais não aceitam ser reduzidas a rótulos. 

Elas respondem, argumentam, olham de volta, buscam fundamentos. 

E isso exige algo que o corajoso digital não possui: responsabilidade pelo que diz.

Há, portanto, uma ironia amarga nesse novo heroísmo. 

Nunca se falou tanto em liberdade de expressão e em autenticidade. 

Nunca se praticou tão pouco o diálogo. 

A praça pública virou feed, o debate de ideias transformou-se em ataque, a discordância, em cancelamento. 

O outro deixou de ser interlocutor e passou a ser inimigo.

Talvez seja hora de resgatar um conceito antigo, quase esquecido, o conceito da coragem verdadeira, aquela que não grita, que não se esconde. 

A coragem que aceita o risco do contraditório e reconhece que ideias só amadurecem quando expostas à luz, nunca à sombra confortável de uma tela


Os novos covardes continuarão rugindo, mas basta desligar o Wi-Fi para perceber que o leão que rugia estrondoso nunca foi mais que um gatinho inofensivo que, quando confrontado, esconde-se na escuridão do seu eu.


* Só discordo em uma coisa: não gatinho, mas ratos que saem do esgoto da estupidez e encontram seus pares à luz do dia... Centenas deles.



INSCREVA-SE!


 

DO MEU BLOQUINHO


Pimmm pimmm... Pimmm pimmm... Tum... Tum... Tum... Cada monitor com sua trilha sonora. "O tempo não passa, né?" Três vezes a mulher que acompanha um doente, diz. Ou pergunta? Faço de conta que não ouço todas as três vezes. Porque o tempo passa diferente para cada um. O meu passa muito rápido e sei desde o início que não teria volta. Alguém grita “Parada, parada, parada!” Os jalecos em correria. Dois minutos ... Outros tantos... Um silêncio. Até parece que os monitores em suspense. Agonia e o alívio. Aplausos. Um adolescente foi salvo com massagem cardíaca pela jovem médica. De vez em quando, um flash e tudo isso me vem a cabeça naqueles dias tristes de uti. A jovem médica estudou na escola particular. Cria daquela bolha. Como será que enfrentou a bolha da ufrgs e sua nota 5 no Mec? Com os colegas que entraram por cotas? Com os professores voltados para o social e humanitário? Lembro como tudo aconteceu: uma médica (residente? estagiária?) que não soube diferenciar no raio x o coração do pulmão. Não foi aluna, foi cliente. Nota 2. E a gente vai engolindo, engolindo até  gerar a flor do câncer.

SONO ETERNO


 "São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores."

De Francisco José Viegas, tradução do hebraico por Maria José Cano.

DISCONFORMIDAD


 Alejandro Vilas - Buenos Aires

BRAVO MISTER SANTANA

 O lendário Carlos Santana, autor de Samba pa ti, hoje aos 78 anos chocou os States quando se dirigiu diretamente ao presidente Trump, ambos em um programa especial sobre imigração, na TV CNN.

O entrevistador Jake Tapper perguntou a Santana a sua opinião sobre o plano de deportação em massa de Trump.

Santana baixou a cabeça e, em seguida, a frase que arrepiou o estúdio:

 "Está separando as famílias e chama isto de política. Não é isso que deveríamos ser."

 Trump remexeu-se na cadeira. A caneta de Tapper parou a meio da página.

Dezessete longos segundos passaram em silêncio.

Carlos Santana continuou, a sua voz lenta e deliberada, cada palavra ressoando como uma nota sustentada de guitarra.

"A música vem do espírito", disse. "E as pessoas que vocês reduzem a estatísticas são as que colhem os alimentos que comemos, que constroem as casas em que vivemos, que cuidam das nossas crianças e que servem as nossas comunidades. São parte integrante da história americana, quer se queira quer não."


Trump tentou interrompê-lo.

Santana levantou a mão — não de forma agressiva, mas serena.

"Por favor", disse ele, "deixem-me terminar."

 Um silêncio absoluto tomou conta da sala.

"A verdadeira liderança não se baseia no medo", declarou Carlos Santana.

"Baseia-se na compaixão, na consciência e na responsabilidade. E a crueldade nunca foi sinal de força."

 A plateia levantou-se.

 Trump levantou-se, retirou o microfone e saiu do palco.

 Carlos Santana permaneceu sentado.

 Virando-se para a câmara central, a sua voz suavizou, mas ressoou com ainda mais profundidade.

"Se a América perdeu o seu rumo", declarou, "não o voltará a encontrar assim, a rejeitar as pessoas." Ela irá reencontrá-la ao recordar a promessa que um dia fez... a promessa de dignidade, esperança e solidariedade, que não a têm mais.”

Seguiu-se um grande silêncio.

Depois, aplausos — longos, prolongados e impossíveis de parar e ignorar.”

 

·        Por Carlos Trindade.

·        Em algum ano das nossas vidas, Giba e eu curtimos um show no Gigantinho, em PoA...


 

LAJEADO: 135 ANOS

1966

De férias, perdi as comemorações do aniversário da cidade. 

Será que chamaram o padre? O pastor? A mãe de santo? A banda? O coral?  

Não li nada. Passou batido, mais uma vez. 

Quem faz niver nas ferias de verão sabe como é. Poucos lembram. 

Quando voltei corri pra fazer uma unha encravada, lixar o cascão e aquela conversa, biriri, bororó... 

- Eu guardo o caderninho do pai. Ele trabalhou no Parque de Máquinas no governo X"...  

Prendi a respiração. 

- Lembra o caso dos pneus, que não deu em nada?

 Sacudi a cabeça como a vaca do presépio. 

- Então, o pai tava lá... Sumiam muitas coisas. As peças eram vendidas e iam para os bolsos dos nomes que constam no caderninho. O pai foi CC testa-de-ferro. Quer pintar de que cor?

- Deixa sem esmalte. Tem fungo na unha.

- Quando o pai morreu, pergunta se algum deles foi ao velório? Se mandaram coroa? Essa corja tá lá dentro até hoje...

- Essa corja é que nem o fungo na minha unha. Nunca vai ter fim. É muito dinheiro fácil, à vista. Olha o prefeito de Garopaba.  Nunca tinha se metido em política. Jogava futebol com meu filho. A cidade cansada da corrupção viu nele um jovem Collor... Deu no que deu. Preso.

* Quanto não deve valer esse caderninho... pensei ao me despedir.


 

janeiro 12, 2026

T. S. ELLIOT

Rodney Smith

“Poetas imaturos imitam,

Poetas maduros roubam.”


 

OFICINA COM CANEPPELE


 

Vou recuperar os créditos desse guri que vi crescer...

Ismael Caneppele fez sua estreia nos palcos em 1998, na Cia de Ópera Seca, com um dos diretores mais difíceis e criativos do país - Gerald Thomas.

Logo acabou no cinema. Quem não lembra do intimista “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho? Gravado aqui na cidade e arredores?

Em 2016 assumiu a direção e o roteiro de “Música para Quando as Luzes se Apagam”, filmado em Cruzeiro do Sul, com Emelyn Fischer e Júlia Lemmertz.

Gravou “Domingo”, filme de Felippe Barbosa e Clara Linharte.

Ao lado de Andrea Beltrão é um dos protagonistas de “Verlust”, também com direção de Esmir Filho.

Acaba de rodar “Nova Éden”, novo filme do premiado diretor Aly Muritiba.

Sem falar que na Globo fez as novelas “Terra e Paixão” e “A dona do Pedaço”, ambas de Walcyr Carrasco. 

E foi Boris Burko na série “Desalma” - dirigido por Carlos Manga Jr. para a Globoplay.

Há poucos dias encerrou a gravação da série “Man on Fire”, do Steven Caple Jr. para a Netflix U.S.A., ao lado de Alice Braga, chegando ao mercado internacional.

 


Ismael Caneppele tem muito o que dizer e o que ensinar. É a nossa chance!

DO MEU BLOQUINHO

Luc Descheemaeker

 … tem coisas boas nos States? Mas o asco prevalece: a explosão da bomba atômica no Japão quando a guerra havia terminado. O embargo à Cuba. As intromissões nos países americanos. O incentivo ao armamento da população. A guerra no Vietnã. O lado criminoso da CIA q a gnt desconhece. O assassinato de Martin Luther King Jr. A Ku Klux Klan. Os loucos da seita de Jim Jones e tantas outras situações odiosas. Lista curta, sem pensar muito, sem pesquisar. E aqui? Um país sem memória, um país que nasceu com o holocausto indígena, com a escravidão de quase 5 milhões de africanos. Uma segunda-feira de sentimentos estranhos quando tu vais dormir sabendo que vive nessa pátria, affff,  de muita, muita corrupção: presidente do país, juízes, promotores, delegados, policiais, militares, prefeitos, secretários de governo, políticos, políticos, políticos, construtores, investidores, lista que não acaba mais. O suprassumo da bandidagem. Como é que o povo não se revolta?  Lima Barreto é quem sabe: “O Brasil não tem povo, tem público. O povo luta por seus direitos, público só assiste de camarote.” Carpe diem, como? Aí tu acorda, te arrasta da cama e descobre que os States premiaram o país.

CARPE DIEM

“A expressão Carpe Diem, originária de um poema de Horácio, é comumente traduzida como “colha o dia” ou “aproveite o momento”.

Horácio, ao escrever seus versos, refletia sobre a instabilidade e a possibilidade de que cada dia pudesse ser o último. A frase, portanto, não era apenas uma expressão de aproveitar a vida, mas uma resposta ao desespero gerado pela destruição de um grande império, que estava à beira do colapso.

Com o tempo, a ideia de Carpe Diem evoluiu para um conceito mais otimista, associado ao incentivo de viver plenamente o presente.”


O poeta Walt Whitman (1819 – 1892) é considerado o “pai do verso livre” ou “pai da poesia americana. Sua obra mais conhecida é “Folhas de Relva”, que foi editada sete vezes. Apenas a última, com sua autorização.

No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”,  o professor Keating vivido pelo ator Robin Willians, se vale da expressão:

“Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? – Carpe – ouve? – Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas.”

 (Talentoso, com Oscar e vários Globos de Ouro, um Robin Willians deprimido se  enforcou em 2014, com um diagnóstico de Parkinson.)

 Volta e meia o cinema americano cita outros poetas ou mostra livros em seus filmes como exemplo de narrador espiritual dos personagens ou virada de narrativa.

 Whitman é citado em vários filmes conforme a internet: 

Manhatta (1921) Bull Durham (1988), Adoráveis mulheres e Com mérito ( 1994), Breaking Bad (2019) Nove dias (2020) A Baleia (2022), etc.

 


Mas, Whitman chupou de Homero o verso e criou a poesia que em 2025 completou 170 anos:

 Aproveita o dia,

Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.

Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.

Não te deixes vencer pelo desalento.

Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.

Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.

Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.

Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.

A vida é deserto e oásis.

Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.

Ainda que o vento sopre contra,

a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.

Não caias no pior dos erros: o silêncio.

A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.

Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoes tuas crenças.

Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.

Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.

Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.

Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.

Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.

Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

Tentamos...