fevereiro 06, 2026

A LINHA



 

 

Quando compreendemos que poderia ser câncer,
deitei-me ao seu lado durante a noite,
a palma da mão repousada no sulco do seu peito,
a nervura de uma folha. 

Não havia possibilidade
de fazer amor: no fundo do meu corpo, aquele
pequeno nódulo duro. 

À meia-luz da minha meia-vida,
minha mão na bela fissura afiada do seu peito, 

o vale da sombra da morte,
só existia o momento presente e, enquanto
você dormia no silêncio, 

eu o observei como quem observa
um recém-nascido, consciente a cada instante 

do milagre, da linha que fora cruzada
para fora da escuridão.

 

Sharon Olds, tradução de Nelson Santander


AH, OS COVARDES...


 Jornal A Hora - Lajeado

* Leitores reclamaram que estava dificil ler na postagem. Transcrevo:

Os novos covardes


Vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil dizer tudo e nunca foi tão difícil sustentar qualquer coisa.

As redes sociais “pariram” uma nova espécie humana: 

o corajoso digital.

Ele surge implacável por detrás de uma tela, vociferando verdades absolutas, distribuindo ofensas, julgamentos morais e sentenças definitivas. 

Ele não hesita, não pondera, não escuta. Ele é valente, destemido.

Esses novos corajosos escrevem com conhecimento de causa e com a segurança de quem jamais será interrompido. 

Eles não enfrentam o silêncio constrangedor de uma plateia, uma réplica imediata, nem o olhar do outro que questiona, que discorda ouque simplesmente não se intimida. 


São os “leões do teclado”, os “gladiadores de WhatsApp”. Avançam com ferocidade, protegidos pelo escudo luminoso da tela.

O fenômeno é recente e curioso, porque subverte valores antigos. 

Coragem, outrora, exigia presença, pressupunha risco. 

Ser corajoso implicava assumir o peso da própria palavra diante de alguém que podia contestá-la. 

O confronto de ideias era um exercício civilizatório. 

Quando a gente falava, tinha que ouvir e podia até discordar, buscando, quem sabe, um consenso mínimo. 

Hoje é diferente, a coragem foi terceirizada à tecnologia. Para exercê-la, no mais das vezes, basta uma conexão estável e alguma dose de agressividade mal digerida.

O novo covarde, entretanto, não se reconhece como tal. Ele se vê como livre, autêntico, alguém que não se sujeita ao “politicamente correto”. 

Acredita que grosseria é sinônimo de franqueza e que opinião só tem valor se vier acompanhada de ofensa.

Curiosamente, quando convidado ao debate real, aquele debate feito sem emojis, sem bloqueios e sem a opção de sair do grupo, o novo covarde evapora, some, silencia, se ausenta. 

Nada o constrange mais do que o diálogo olho no olho. 

A tela lhe dá coragem, enquanto a presença lhe inflige pânico. 

Afinal, pessoas reais não aceitam ser reduzidas a rótulos. 

Elas respondem, argumentam, olham de volta, buscam fundamentos. 

E isso exige algo que o corajoso digital não possui: responsabilidade pelo que diz.

Há, portanto, uma ironia amarga nesse novo heroísmo. 

Nunca se falou tanto em liberdade de expressão e em autenticidade. 

Nunca se praticou tão pouco o diálogo. 

A praça pública virou feed, o debate de ideias transformou-se em ataque, a discordância, em cancelamento. 

O outro deixou de ser interlocutor e passou a ser inimigo.

Talvez seja hora de resgatar um conceito antigo, quase esquecido, o conceito da coragem verdadeira, aquela que não grita, que não se esconde. 

A coragem que aceita o risco do contraditório e reconhece que ideias só amadurecem quando expostas à luz, nunca à sombra confortável de uma tela


Os novos covardes continuarão rugindo, mas basta desligar o Wi-Fi para perceber que o leão que rugia estrondoso nunca foi mais que um gatinho inofensivo que, quando confrontado, esconde-se na escuridão do seu eu.


* Só discordo em uma coisa: não gatinho, mas ratos que saem do esgoto da estupidez e encontram seus pares à luz do dia... Centenas deles.



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DO MEU BLOQUINHO


Pimmm pimmm... Pimmm pimmm... Tum... Tum... Tum... Cada monitor com sua trilha sonora. "O tempo não passa, né?" Três vezes a mulher que acompanha um doente, diz. Ou pergunta? Faço de conta que não ouço todas as três vezes. Porque o tempo passa diferente para cada um. O meu passa muito rápido e sei desde o início que não teria volta. Alguém grita “Parada, parada, parada!” Os jalecos em correria. Dois minutos ... Outros tantos... Um silêncio. Até parece que os monitores em suspense. Agonia e o alívio. Aplausos. Um adolescente foi salvo com massagem cardíaca pela jovem médica. De vez em quando, um flash e tudo isso me vem a cabeça naqueles dias tristes de uti. A jovem médica estudou na escola particular. Cria daquela bolha. Como será que enfrentou a bolha da ufrgs e sua nota 5 no Mec? Com os colegas que entraram por cotas? Com os professores voltados para o social e humanitário? Lembro como tudo aconteceu: uma médica (residente? estagiária?) que não soube diferenciar no raio x o coração do pulmão. Não foi aluna, foi cliente. Nota 2. E a gente vai engolindo, engolindo até  gerar a flor do câncer.

SONO ETERNO


 "São túmulos de tempos antigos, velhos. Neles há gente que dorme um sono eterno. Nem ódio, nem inveja há no seu interior, nem amor, nem zangas de vizinhos. Os meus pensamentos não podem, quando os veem, distinguir entre servos e senhores."

De Francisco José Viegas, tradução do hebraico por Maria José Cano.

DISCONFORMIDAD


 Alejandro Vilas - Buenos Aires

BRAVO MISTER SANTANA

 O lendário Carlos Santana, autor de Samba pa ti, hoje aos 78 anos chocou os States quando se dirigiu diretamente ao presidente Trump, ambos em um programa especial sobre imigração, na TV CNN.

O entrevistador Jake Tapper perguntou a Santana a sua opinião sobre o plano de deportação em massa de Trump.

Santana baixou a cabeça e, em seguida, a frase que arrepiou o estúdio:

 "Está separando as famílias e chama isto de política. Não é isso que deveríamos ser."

 Trump remexeu-se na cadeira. A caneta de Tapper parou a meio da página.

Dezessete longos segundos passaram em silêncio.

Carlos Santana continuou, a sua voz lenta e deliberada, cada palavra ressoando como uma nota sustentada de guitarra.

"A música vem do espírito", disse. "E as pessoas que vocês reduzem a estatísticas são as que colhem os alimentos que comemos, que constroem as casas em que vivemos, que cuidam das nossas crianças e que servem as nossas comunidades. São parte integrante da história americana, quer se queira quer não."


Trump tentou interrompê-lo.

Santana levantou a mão — não de forma agressiva, mas serena.

"Por favor", disse ele, "deixem-me terminar."

 Um silêncio absoluto tomou conta da sala.

"A verdadeira liderança não se baseia no medo", declarou Carlos Santana.

"Baseia-se na compaixão, na consciência e na responsabilidade. E a crueldade nunca foi sinal de força."

 A plateia levantou-se.

 Trump levantou-se, retirou o microfone e saiu do palco.

 Carlos Santana permaneceu sentado.

 Virando-se para a câmara central, a sua voz suavizou, mas ressoou com ainda mais profundidade.

"Se a América perdeu o seu rumo", declarou, "não o voltará a encontrar assim, a rejeitar as pessoas." Ela irá reencontrá-la ao recordar a promessa que um dia fez... a promessa de dignidade, esperança e solidariedade, que não a têm mais.”

Seguiu-se um grande silêncio.

Depois, aplausos — longos, prolongados e impossíveis de parar e ignorar.”

 

·        Por Carlos Trindade.

·        Em algum ano das nossas vidas, Giba e eu curtimos um show no Gigantinho, em PoA...


 

LAJEADO: 135 ANOS

1966

De férias, perdi as comemorações do aniversário da cidade. 

Será que chamaram o padre? O pastor? A mãe de santo? A banda? O coral?  

Não li nada. Passou batido, mais uma vez. 

Quem faz niver nas ferias de verão sabe como é. Poucos lembram. 

Quando voltei corri pra fazer uma unha encravada, lixar o cascão e aquela conversa, biriri, bororó... 

- Eu guardo o caderninho do pai. Ele trabalhou no Parque de Máquinas no governo X"...  

Prendi a respiração. 

- Lembra o caso dos pneus, que não deu em nada?

 Sacudi a cabeça como a vaca do presépio. 

- Então, o pai tava lá... Sumiam muitas coisas. As peças eram vendidas e iam para os bolsos dos nomes que constam no caderninho. O pai foi CC testa-de-ferro. Quer pintar de que cor?

- Deixa sem esmalte. Tem fungo na unha.

- Quando o pai morreu, pergunta se algum deles foi ao velório? Se mandaram coroa? Essa corja tá lá dentro até hoje...

- Essa corja é que nem o fungo na minha unha. Nunca vai ter fim. É muito dinheiro fácil, à vista. Olha o prefeito de Garopaba.  Nunca tinha se metido em política. Jogava futebol com meu filho. A cidade cansada da corrupção viu nele um jovem Collor... Deu no que deu. Preso.

* Quanto não deve valer esse caderninho... pensei ao me despedir.