Os novos covardes
Vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil dizer tudo e
nunca foi tão difícil sustentar qualquer coisa.
As redes sociais “pariram” uma nova espécie humana:
o
corajoso digital.
Ele surge implacável por detrás de uma tela, vociferando verdades
absolutas, distribuindo ofensas, julgamentos morais e sentenças
definitivas.
Ele não hesita, não pondera, não escuta. Ele é valente, destemido.
Esses novos corajosos escrevem com conhecimento de causa e
com a segurança de quem jamais será interrompido.
Eles não enfrentam o silêncio
constrangedor de uma plateia, uma réplica imediata, nem o olhar do outro que
questiona, que discorda ouque simplesmente não se intimida.
São os “leões do teclado”,
os “gladiadores de WhatsApp”. Avançam com ferocidade, protegidos pelo escudo
luminoso da tela.
O fenômeno é recente e curioso, porque subverte valores
antigos.
Coragem, outrora, exigia presença, pressupunha risco.
Ser corajoso implicava
assumir o peso da própria palavra diante de alguém que podia contestá-la.
O confronto
de ideias era um exercício civilizatório.
Quando a gente falava, tinha que
ouvir e podia até discordar, buscando, quem sabe, um consenso mínimo.
Hoje é diferente, a
coragem foi terceirizada à tecnologia. Para exercê-la, no mais das
vezes, basta uma conexão estável e alguma dose de agressividade mal digerida.
O novo covarde, entretanto, não se reconhece como tal. Ele
se vê como livre, autêntico, alguém que não se sujeita ao “politicamente
correto”.
Acredita que grosseria é sinônimo de franqueza e que opinião só tem valor se vier
acompanhada de ofensa.
Curiosamente, quando convidado ao debate real, aquele debate
feito sem emojis, sem bloqueios e sem a opção de sair do grupo, o novo covarde
evapora, some, silencia, se ausenta.
Nada o constrange mais do que o diálogo olho no
olho.
A tela lhe dá coragem, enquanto a presença lhe inflige pânico.
Afinal,
pessoas reais não aceitam ser reduzidas a rótulos.
Elas respondem, argumentam, olham
de volta, buscam fundamentos.
E isso exige algo que o corajoso digital não
possui: responsabilidade pelo que diz.
Há, portanto, uma ironia amarga nesse novo heroísmo.
Nunca
se falou tanto em liberdade de expressão e em autenticidade.
Nunca se praticou
tão pouco o diálogo.
A praça pública virou feed, o debate de ideias transformou-se
em ataque, a discordância, em cancelamento.
O outro deixou de ser interlocutor e passou
a ser inimigo.
Talvez seja hora de resgatar um conceito antigo, quase
esquecido, o conceito da coragem verdadeira, aquela que não grita, que não se
esconde.
A coragem que aceita o risco do contraditório e reconhece que ideias só
amadurecem quando expostas à luz, nunca à sombra confortável de uma tela.
Os novos
covardes continuarão rugindo, mas basta desligar o Wi-Fi para perceber que o leão que
rugia estrondoso nunca foi mais que um gatinho inofensivo que, quando confrontado,
esconde-se na escuridão do seu eu.
* Só discordo em uma coisa: não gatinho, mas ratos que saem do esgoto da estupidez e encontram seus pares à luz do dia... Centenas deles.