novembro 20, 2015

UMA SANTA NO VALE DO TAQUARI




                                                          Tela de Angelo Tommasi

Nem todo mundo tem uma tia-avó que é santa. Santinha de verdade, daquelas  canonizadas pelas próprias mãos do Papa  – ela me contou, enquanto ao seu redor uma babel  esclerosada também queria se fazer ouvir.
                - A história é longa...
                - Estou aqui para escutar.
                Então ela relembrou pedaços de sua história, fragmentos afetivos protegidos por uma  memória traiçoeira. Mas adoro uma boa pesquisa. Quando vejo, a história é muito longa mesmo.
          

                JOSÉ GHILARDUCCI MARCHETTI


                O menino José  completou  os votos sacerdotais em 1892, no Seminário de Lucca, na região da Toscana, Itália. Os pais, Ângelo e Carolina, eram pobres como todo o povo da região.  Ambos trabalhavam no moinho de Lombrici, distante dois quilômetros da pequena  Camaiore.

O casal gerou dez filhos, não por ordem de nascimento: José,  Agostinho, Ângela, Teresa, Pio, Vicente, Elvira, Filomena e Maria Luiza e Maria Assunta. Épocas difíceis. Antes trabalhar do que estudar. Mas, com apoio do dono do moinho, Marquês de Mansi, o pequeno José  conseguiu estudar e foi encaminhado  para o Seminário onde realizou o sonho de se ver missionário.  
Aos 23 anos José foi consagrado  pelas mãos do Bispo de Piacenza, João Batista Scalabrini, fundador  da Ordem de São Carlos.

Logo em seguida, padre José viajou como capelão da Congregação dos Missionários de São Carlos, em um navio abarrotado de imigrantes italianos, refugiados  do desemprego, da miséria, da desesperança.  Nessas travessias marítimas ouvia confissão, realizava cerimônias de casamento e fúnebres, já que centenas  morriam  em alto mar. Vale  lembrar que mais de sete  milhões imigrantes italianos desembarcaram no Brasil entre 1860 e 1920.

Em uma dessas jornadas morreu a mãe de um bebê. O marido desesperado ameaçava atirar-se também ao mar com a criança. Para acalmar o pai, o padre José se comprometeu  em assumir a criança. Assim que desembarcou no Rio de Janeiro, com o bebê nos braços,  bateu  de porta em porta, até conseguir deixar o menino  junto a um porteiro de uma casa religiosa. Abrigo provisório, a quem prometeu voltar para buscá-lo.

A partir daí  padre José entendeu sua missão: cuidar dos órfãos que sobreviviam à travessia, e não exercer atividades de mero capelão de conselhos e exéquias.

Em sua segunda viagem transatlântica, o  padre José  não mais voltou a Paróquia de Compignano,  na Perugia, mas fundou em São Paulo um orfanato  no alto do bairro Ipiranga, em terreno doado pelo conde José Vicente de Azevedo, assim como doado também material para a obra. E em 15 de fevereiro de 1895 é colocada a primeira pedra do orfanato Cristóvão Colombo e,  logo em seguida, o padre José deu início às obras de um segundo edifício, dessa vez  na Vila Prudente, para abrigar meninas. Esse edificado em um terreno doado  pela senhora Maria do Carmo Cypariza Rodrigues e pelos irmãos Falchi.  Os dois orfanatos exclusivamente para receber filhos órfãos dos imigrantes italianos e africanos que viviam no país, a grande maioria trabalhando em cafezais.


Precisando de ajuda para tocar os orfanatos, p. José volta para casa na Itália, em  1887. Entusiasmado e alegre com sua missão  conta tudo o que realizou à sua família:  “Só que eu estou sozinho. Preciso de Irmãs para cuidar dos doentes e dos órfãos. Por isso vim pedir a Dom Scalabrini que envie para São Paulo um grupo de Irmãs dedicadas para realizar essa função, tão necessária e importante”.

Para a própria irmã, Maria Assunta, que ensaiava seus votos religiosos  e de confinamento na Ordem das Carmelitas, disse:
“Lá no Brasil estou sozinho com muitos órfãos. Olhe para o Coração de Jesus, escute seus apelos e depois me responda.”

Maria Assunta conta:
”Sem saber o que fazer, coloquei-me diante da imagem do Coração de Jesus e, em profundo silêncio, permaneci um tempo em oração. Nesta oração, recebi a confirmação da vontade de Deus e aceitei o desafio. Eu disse “Sim” com todo o coração, mesmo sabendo que era para toda a vida.”

                A missão apostólica, mais tarde denominada Missionárias de São Carlos, iniciou no dia 27 de outubro de 1895 quando o navio “Fortunata Raggio” zarpou de Gênova, com a costumeira carrega de imigrantes e de misérias. Antes de desembarcar no Brasil,  83 filhos de italianos foram catequizados pacientemente, dia a dia, durante a longa viagem. No navio receberam a 1ª Comunhão das mãos do Pe. José. Desembarcaram  em Santos, depois de 25 dias de viagem. O padre  e as Irmãs chegaram a São Paulo à noite, no dia 20 de novembro. Os primeiros vinte órfãos esperavam com ansiedade a chegada de quem vinha para cumprir o papel de mãe.  

                Mas, Padre José Marchetti  viveu apenas mais cinco anos na capital paulista. Contraiu febre tifoide, muito comum entre os imigrantes naquele período. Tinha 27 anos quando morreu  deixando cerca de 180 crianças para cuidar no orfanato.

A IRMÃ

                Maria Assunta  Ghilarducci Marchetti nasceu em  Lombrici di Camaiore, província de Lucca, em 15 de agosto de 1871. Completara  24 anos quando aceitou o convite do seu irmão padre José para atender as crianças do orfanato.

                Em 25 de outubro de 1895, na cidade de Piacenza,  Maria Assunta tornou-se a primeira missionária do ramo feminino dos Missionários de São Carlos.

                Ela e mais duas companheiras, Angela Larini e Maria Franceschini, fizeram os votos religiosos pelas mãos do próprio Dom João Batista Scalabrini que fundou a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo-Scalabrinianas. As três passaram a se chamar “Servas dos Órfãos e Abandonados”, mais tarde, “ Irmã Missionária de São Carlos”.

                Irmã Maria Assunta e as companheiras fizeram votos de pobreza, castidade e obediência. Receberam os crucifixos, símbolo da missionariedade . De trem rumo ao porto de Gênova e de lá  embarcadas no navio Fortunata Raggio para o Brasil. Dois anos antes, o pai Angelo havia morrido devido a uma tuberculose.  Assim a mãe acompanhou a filha na viagem que durou vinte dias até chegar ao Rio de Janeiro. Durante a travessia tiveram contato com a dura realidade da imigração.

                Mas antes de partir, Dom Scalabrini encorajou as jovens: “Ide confiantes, filhas. Mandar-vos-ei depois outras Irmãs e vós retornareis para formar-vos e consolidar-vos no espírito religioso”. Assim nasceu a Congregação fundada por Dom João Batista Scalabrini.

                Na verdade, Maria Assunta preferia ingressar nas Carmelitas e se afastar da vida mundana, vivendo contemplativamente. Aconteceu o contrário e ela chegou para trabalhar ativamente em São Paulo.

                Os orfanatos fundados pelo irmão  tinham como objetivo estabelecer um ambiente familiar para os pequenos que haviam perdido os pais no trajeto da imigração e no trabalho nas fazendas de café.
                Em 1912 é nomeado Superior Geral da Congregação e passada tantas turbulências, escolhe três palavras-chave como guia de vida: União, Obediência e Caridade.

                Madre Assunta se dedicou ao próximo com heroísmo e não mediu esforços para atender os mais necessitados. De bondade extraordinária, piedosa, rezava continuamente e repetia sempre aos que lhe falavam “se Deus quer, que assim seja.”  Quem a conheceu  e conviveu com ela expressa  a estima e admiração pelo exemplo e heroicidade das virtudes como humilde, paciência e afetuosa, sem preconceitos.

                 “Nunca percebi hipocrisia, vanglória, ingratidão, busca de prestígio nas atitudes de Madre Assunta. Atribuía todo o bem realizado somente à bondade divina.”- contou uma irmã.

                “Madre Assunta tinha uma vida espiritual muito profunda e as curas que realizava não eram resultado de curas médicas, mas de suas orações e de sua participação à Vida Divina. Era muito devota de Nossa Senhora e gostava de difundir esta devoção. Ensinava rezar o rosário e a contemplar os mistérios. Ensinava também a doutrina cristã. Todos diziam que a irmã Assunta tinha o dom de curar as doenças. Sua oração operava coisas admiráveis.”

                A CONGREGAÇÃO NO VALE DO TAQUARI

                A própria Irmã Assunta é quem conta:
                “Em 1915, fomos mais audaciosas, estabelecendo-nos com nossa primeira missão em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, região de colonização italiana.

                No dia 11 de março de 1919 fui enviada para Nova Bréscia, onde fundamos uma nova escola, Colégio Sagrado Coração de Jesus.

                Era um lugar de difícil acesso, com apenas 60 famílias, um lugar retirado, onde ninguém queria ir. Mas eu respondi ao pedido do pároco local, Pe. Giovani  Morelli, que nos convidara. Disse- lhe: “Nosso lema é fazer a vontade de Deus.” E fui acompanhada por duas Irmãs: Ir. Atília Angeli e Ir. Justina de Camargo.

                Nesta nova missão, em Nova Bréscia, organizamos o ensino, a catequese, visitas às famílias, teatro na escola, muito integradas com aquela comunidade de imigrantes. Não havia médico. Tive que tratar muitas pessoas com problemas de saúde, ferimentos, infecções, casos de urgência; também assisti muitos partos. Alguns dos casos eram até muito graves. A senhora Paula Macagnam ia sempre comigo, foi minha companheira inseparável. Irmã missionária scalabriniana de coração materno.”

                “Em Nova Bréscia, Madre Assunta praticou acima de tudo a virtude da paciência, da caridade e viveu de modo especial, unida a Deus. Doou-se sem reservas, sobretudo em relação aos doentes, aos pobres, às crianças, e ainda hoje é recordada pela sua caridade. Na cidade, até hoje continua sendo lembrada e venerada: em 2007, a Rua 15 de Novembro passou a ser denominada Rua Madre Assunta Marchetti, uma lembrança em honra à Serva de Deus que doou muito de si àquele lugar.”
                Madre Assunta cita outras instituições que ajudou a implantar no Vale do Taquari, como o Colégio Santa Teresinha, em Anta Gorda,


 o Colégio São José e Hospital São Camilo, em Roca Sales e o Colégio Pio X, em Muçum.

                Em 1947 Madre Assunta é  internada no hospital Umberto I para o tratamento de erisipela e varizes nas pernas.

                A religiosa viveu no Brasil por mais de cinquenta anos. Passou os últimos meses de sua vida em uma cadeira de rodas,  sempre atenta em servir o próximo. Faleceu em 1º de julho de 1948, no orfanato na Vila Prudente , às 15h15min, assistida por dois sacerdotes, entre seus familiares e suas órfãs e sob os cuidados de suas Irmãs da Congregação. Hoje o orfanato  chama-se  “Casa Madre Assunta Marchetti”.

                Clarice Beraldini, a primeira órfã acolhida pelo Padre Marchetti, também religiosa da Ordem, por ocasião da morte de Madre Assunta,  diria chorando: “Hoje, nesta casa, morreu a caridade.”

                O MILAGRE

                Quatro anos depois de sua morte, no dia 14 de dezembro de 1952 inicia-se em Caxias do Sul a divulgação de uma “pequena imagem” com a fotografia de Madre Assunta e uma oração para obter sua beatificação.

                Em agosto de 1970 acontece a exumação dos restos mortais de Madre Assunta e Pe. Marchetti para conservação em outro túmulo e lugar.

                Em julho de 1991 é feito o translado dos seus restos mortais para um nicho próprio na capela do Orfanato, em Vila Prudente, São Paulo.

                Em 1994, em Porto Alegre,  o engenheiro Heráclides Teixeira Filho foi diagnosticado com morte cerebral, no Hospital Mãe de Deus. Após a família pedir a intercessão de Madre Assunta, o paciente recobrou os sentidos e ficou curado sem sequelas vitais e  intelectuais.

                Em dezembro de 2011, o Papa Bento XVI promulgou o decreto que reconhece as virtudes heróicas e confere o título de Venerável.

                Em fevereiro de 2013, aprovação do aparecimento do milagre teológico atribuído a Madre Assunta, pelo Congresso dos teólogos para as Causas dos Santos no Vaticano.

                No dia 25 de outubro de 2014 aconteceu sua beatificação, em São Paulo.


                ONDE TERMINA A HISTÓRIA DA TIA-AVÓ?
                Teresa, irmã de Madre Assunta e padre José Marchetti, também veio ao  Brasil quando viúva. Trabalhou no Orfanato São Cristóvão onde criou os filhos, sendo que Angelina casaria com Domingos Zononato.  Dessa união, cinco filhos: Atílio, Arnaldo, Benito, Tosca e Terezinha.

                Tosca encontra-se hoje numa casa geriatrica, em Lajeado. Ela é sobrinha-neta da Beata Madre Assunta. E lembra que visitava o Orfanato Cristovão Colombo para ver a sua avó e tia-avó. Se eu não acreditasse nas palavras de Tosca não teria pesquisado. Mas acreditei, porque essas histórias me fascinam. E elas nem precisam ser tão reais...