julho 16, 2024

DO MEU BLOQUINHO

“A acepção de bruxa não corresponde exclusivamente à mulher de nariz adunco que pratica o mal através de poções mágicas feitas em caldeirões. As mulheres quietas, barulhentas, transgressoras, benzedeiras, cartomantes, ciganas, “bugras”, pretas, ruivas, canhotas, hereges, ambiciosas, já foram – e ainda são – chamadas, eventualmente, de bruxas.

Da mesma forma, a mulher que não satisfaz a determinados padrões de aparência recebe o epíteto: a bruxa é a que não “se cuida”, a idosa decrépita, aquela a quem lhe faltam dentes...”

Da introdução do artigo “Pra te comer melhor”: maternidade, desejo e fome nos contos de fadas”, da professora Rosane Cardoso, busquei na memória a tia Menina, lá de Vera Cruz. 

Conta a lenda familiar que o marido a engravidou e fugiu. O delegado e a polícia correram por todos cafundós de Trombudo, Sítio, Rincão. Até o acharem no meio do mato e trazerem de volta pra casar. 

Tia Menina era muito feia e a conheci velha. Não devia ter 45 anos! 

Sua cozinha era escura, o fogão a lenha com panelas fumegantes ... E a tia Menina - como seria o nome dela? - encurvada, narigão, cabelos brancos destrambelhados, a própria  bruxa. Botava medo nas minhas fantasias. 

Mas era uma querida, sempre oferecendo  algo bom pra comer e perguntando se meu pai continuava muito brabo e me surrando. Aquilo me derretia.  Eu sentava no banquinho das lenhas e admirava os cheiros e os vapores que nublavam aquele ambiente mágico. 

No seu artigo, Rosane Cardoso diferencia bruxa e feiticeira. 

Fiquei encantada com as distinções. Nunca tinha pensado nisso. Foi daí que tomei Tia Menina por uma maga, que manipulava suas caçarolas e transformava a simplicidade em doces e salgados, sem nenhum grimoire para se basear. Avançando na leitura do artigo, Rosane escreve:

“...repare-se que, no contexto dos contos de fadas, uma mãe não existe sem pertencer a um determinado constructo: a família ou, mais objetivamente, a tríade pai, mãe e filhos. No entanto, o pai é uma ausência quase unânime nos contos de fadas. Pode-se dizer, sem medo de errar, que as narrativas pertencem a filhos e filhas, àqueles que ainda precisam construir um caminho que, parece, o pai já teria cumprido.”

Acho que com isso, tio Déco também nem falta faria.

 




 

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