junho 15, 2024

DO MEU BLOQUINHO #FORAPL1904

Em 1977 fui estudar Comunicação na PUC. Eu e a personagem do Chico Anísio. Alguém lembra?  Procurei entre as dezenas de personagens criados por ele e não a descobri. Enfim, estudava e morava num pensionato fudido, bem no início da Oswaldo Aranha. Éramos entre seis gurias no mesmo quarto, que se viam à noite, antes de dormir. Criei vínculos com duas. Um dia, depois do meio-dia, cheguei no quarto e vi uma delas deitada e encolhida, virada para a parede. Chorava e gemia. Quando perguntei para outra o q havia acontecido, o sussurro: aborto. Aquilo foi como um choque na torneira do banheiro. Em seguida, a diarista da limpeza chegou com uma canja para a nossa colega. O gesto confortou a todas nós. Mas foi tudo muito soturno, em segredo, solitário.

Algum tempo depois, fui convidada a dividir apê numa transversal da João Pessoa, próximo a Casa do Estudante. Em três, o aluguel no mesmo valor da pensão. Não eram calouras como eu. Uma cursava Enfermagem e trabalhava no Clínicas. A outra, Letras. Ambas na Ufrgs. Eram de Bento ou Farroupilha. Então chegou o dia em que eu precisei cozinhar uma canja para uma delas. E o silêncio se impôs, novamente.

Quatro anos depois, eu na segunda gravidez, conversava com a Marisa, que faxinava toda terça-feira nosso apê. Contei para ela essas duas situações. Ela, mãe de cinco crianças, desdenhou revirando os olhos e respondeu q também já fizera um aborto. Como, mulher?

-Com uma agulha de tricô.

É isso. Aborto sempre existiu. Quem tem dinheiro, paga médico em clínica suspeita. Ou o médico aquele, amigo do seu pai, do irmão... Quem não tem, usa agulha de tricô. Com sorte ninguém morre.

Agora, Vossos Excrementíssimos deputados, definem legislatura sobre nossos corpos. Quem votou à favor?  Não falha uma única vez: todos bolsonaristas, fascistas, que equiparam aborto a crime de homicídio. 


Concorda? Então vtnc* e vaza daqui.

 


0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial