LUIS MANUEL ALVARES GARCIA
Anos 70. Dois freis desembarcam em Lajeado. Navarro,
gordo e alegre e Luis Manoel, mais introspectivo, magrinho e também alegre. Chamavam atenção pela simplicidade.
Quando estudava no Ceat, os católicos saiam das salas
durante a aula de religião. Coube ao Luis Manuel evangelizar o pequeno grupo de
irrequietos alunos. Assim conheci aquele frei com quem manteria amizade por
toda minha vida. Adolescente, enfrentei os dogmas pedagógicos e provocava como
boa adolescente: “Prova que Deus existe!” “Jesus é gay?” Não lembro as
respostas, mas ele sorria e rebatia tudo com a maior paciência, como homem de
fé que era na Paróquia de Moinhos.
internet
Pouco tempo em Lajeado, na periferia. Navarro às voltas com os exilados
políticos - soube depois quando realizei entrevistas para meu livro “Engole esse
choro”.
Quando meu irmão morreu, recebi uma carta comovente, tentando explicar os caminhos que a vida percorre. Incluí numa crônica do livro "Crescer é morrer devagarzinho".
Bem que ele escreveu, em 1984: "Por que não te animas a escrever um livro? Já há um leitor firme: eu. Pelo menos não abandona a poesia, a criatividade, todo o rio que há em você de artista." E encerrava: "A gente se encontra no alto das estrelas."
Trocamos correspondência durante muitos anos, que guardo até hoje e alguns fragmentos inseri no livro “Engole...” Perdemos o contato. Mas eu telefonava para a última paróquia, conseguia os endereços. Com as redes sociais o descobri em Unhos, Portugal. Um vai-vem de e-mails.
Marcamos de nos ver em 2018, em Lisboa. Ele chegou de moto, sacola de couro atravessada ao peito, aos 73 anos. Um encontro de muitas risadas e brilho nos olhos. Luis Manuel gostava de viver, de contar causos, relembrar momentos em Lajeado. Perguntava de pessoas que conheceu aqui, mas eu nada sabia.
Em maio desse ano, por whatsaap contou que estava doente,
tratamento difícil. Mas feliz, junto à família, enviou fotos dos irmão, dos sobrinhos. Depois de um tempo de silêncio, não respondeu os whats, os emails, não obtive mais respostas...
“Combati o bom combate,
acabei a carreira,
guardei a fé.”
2 Timóteo 4:7
Faleceu aos 83 anos no dia 14 de junho.
Choro mais essa perda. Será que gente há de se encontrar no alto das estrelas?


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