agosto 14, 2026

LUIS MANUEL ALVARES GARCIA

 

Foto Sebaldo Hammes


Anos 70. Dois freis desembarcam em Lajeado. Navarro, gordo e alegre e Luis Manoel, mais introspectivo, magrinho e também alegre.  Chamavam atenção pela simplicidade.

Quando estudava no Ceat, os católicos saiam das salas durante a aula de religião. Coube ao Luis Manuel evangelizar o pequeno grupo de irrequietos alunos. Assim conheci aquele frei com quem manteria amizade por toda minha vida. Adolescente, enfrentei os dogmas pedagógicos e provocava como boa adolescente: “Prova que Deus existe!” “Jesus é gay?” Não lembro as respostas, mas ele sorria e rebatia tudo com a maior paciência, como homem de fé que era na Paróquia de Moinhos.

 De família grande, pai militar no tempo do Franco, vários irmãos e irmãs, fez seu noviciado em 1959 e ordenado padre em 11 de março de 1967, em Madri. Sim, era espanhol.

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Pouco tempo em Lajeado, na periferia. Navarro às voltas com os exilados políticos - soube depois quando realizei entrevistas para meu livro “Engole esse choro”.

Quando meu irmão morreu, recebi uma carta comovente, tentando explicar os caminhos que a vida percorre. Incluí numa crônica do livro "Crescer é morrer devagarzinho".

Bem que ele escreveu, em 1984: "Por que não te animas a escrever um livro? Já há um leitor firme: eu. Pelo menos não abandona a poesia, a criatividade, todo o rio que há em você de artista." E encerrava:  "A gente se encontra no alto das estrelas."



 O padre Luis Manuel, um filósofo nato e teólogo, permaneceu no Brasil durante 24 anos, sempre trabalhando nos arredores das cidades, nas favelas do país, entregando a evangelização com humildade, leveza e sabedoria. Um dia bateu aqui em casa, visitava amigos. Recebemos com muita alegria. Sua presença foi uma honra. Embaixo da jabuticabeira, confessei e deixei jorrar minhas angústias. Ouvi palavras que me acalmaram e botaram pra cima. O acerto era lá em cima. Que eu nunca perdesse minhas inquietações.

 


Trocamos correspondência durante muitos anos, que guardo até hoje e alguns fragmentos inseri no livro “Engole...” Perdemos o contato. Mas eu telefonava para a última paróquia, conseguia os endereços. Com as redes sociais o descobri em Unhos, Portugal. Um vai-vem de e-mails. 


Marcamos de nos ver em 2018, em Lisboa. Ele chegou de moto, sacola de couro atravessada ao peito, aos 73 anos. Um encontro de muitas risadas e brilho nos olhos. Luis Manuel gostava de viver, de contar causos, relembrar momentos em Lajeado. Perguntava de pessoas que conheceu aqui, mas eu nada sabia.

 


Em maio desse ano, por whatsaap contou que estava doente, tratamento difícil. Mas feliz, junto à família, enviou fotos dos irmão, dos sobrinhos. Depois de um tempo de silêncio, não respondeu os whats, os emails, não obtive mais respostas...

 

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“Combati o bom combate, 

acabei a carreira, 

guardei a fé.” 

2 Timóteo 4:7

 

Faleceu aos 83 anos no dia 14 de junho.

Choro mais essa perda. Será que gente há de se encontrar no alto das estrelas?

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