fevereiro 06, 2026

AH, OS COVARDES...


 Jornal A Hora - Lajeado

* Leitores reclamaram que estava dificil ler na postagem. Transcrevo:

Os novos covardes


Vivemos tempos curiosos. Nunca foi tão fácil dizer tudo e nunca foi tão difícil sustentar qualquer coisa.

As redes sociais “pariram” uma nova espécie humana: 

o corajoso digital.

Ele surge implacável por detrás de uma tela, vociferando verdades absolutas, distribuindo ofensas, julgamentos morais e sentenças definitivas. 

Ele não hesita, não pondera, não escuta. Ele é valente, destemido.

Esses novos corajosos escrevem com conhecimento de causa e com a segurança de quem jamais será interrompido. 

Eles não enfrentam o silêncio constrangedor de uma plateia, uma réplica imediata, nem o olhar do outro que questiona, que discorda ouque simplesmente não se intimida. 


São os “leões do teclado”, os “gladiadores de WhatsApp”. Avançam com ferocidade, protegidos pelo escudo luminoso da tela.

O fenômeno é recente e curioso, porque subverte valores antigos. 

Coragem, outrora, exigia presença, pressupunha risco. 

Ser corajoso implicava assumir o peso da própria palavra diante de alguém que podia contestá-la. 

O confronto de ideias era um exercício civilizatório. 

Quando a gente falava, tinha que ouvir e podia até discordar, buscando, quem sabe, um consenso mínimo. 

Hoje é diferente, a coragem foi terceirizada à tecnologia. Para exercê-la, no mais das vezes, basta uma conexão estável e alguma dose de agressividade mal digerida.

O novo covarde, entretanto, não se reconhece como tal. Ele se vê como livre, autêntico, alguém que não se sujeita ao “politicamente correto”. 

Acredita que grosseria é sinônimo de franqueza e que opinião só tem valor se vier acompanhada de ofensa.

Curiosamente, quando convidado ao debate real, aquele debate feito sem emojis, sem bloqueios e sem a opção de sair do grupo, o novo covarde evapora, some, silencia, se ausenta. 

Nada o constrange mais do que o diálogo olho no olho. 

A tela lhe dá coragem, enquanto a presença lhe inflige pânico. 

Afinal, pessoas reais não aceitam ser reduzidas a rótulos. 

Elas respondem, argumentam, olham de volta, buscam fundamentos. 

E isso exige algo que o corajoso digital não possui: responsabilidade pelo que diz.

Há, portanto, uma ironia amarga nesse novo heroísmo. 

Nunca se falou tanto em liberdade de expressão e em autenticidade. 

Nunca se praticou tão pouco o diálogo. 

A praça pública virou feed, o debate de ideias transformou-se em ataque, a discordância, em cancelamento. 

O outro deixou de ser interlocutor e passou a ser inimigo.

Talvez seja hora de resgatar um conceito antigo, quase esquecido, o conceito da coragem verdadeira, aquela que não grita, que não se esconde. 

A coragem que aceita o risco do contraditório e reconhece que ideias só amadurecem quando expostas à luz, nunca à sombra confortável de uma tela


Os novos covardes continuarão rugindo, mas basta desligar o Wi-Fi para perceber que o leão que rugia estrondoso nunca foi mais que um gatinho inofensivo que, quando confrontado, esconde-se na escuridão do seu eu.


* Só discordo em uma coisa: não gatinho, mas ratos que saem do esgoto da estupidez e encontram seus pares à luz do dia... Centenas deles.



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