outubro 19, 2018

IMPOTÊNCIA: UM RIO MORTO HA 3 ANOS



O Rio Doce corre por cerca de 850 quilômetros, cortando dois distritos de Minas Gerais, e é a fonte de vida para muitas pessoas, incluindo o povo krenak, que vive num pequeno assentamento às margens do rio.

 Quando a barragem estourou no dia 5 de novembro  de 2015, uma torrente de lama tóxica matou 17 pessoas, dizimando um vilarejo próximo a Bento Rodrigues e contaminando o Rio Doce, até chegar ao Oceano Atlântico.

Especialistas em saúde detectaram arsênico, zinco, cobre, mercúrio e antimônio na água do rio. Eles dizem que as toxinas permanecerão no Rio Doce pelos próximos 100 anos.

Dejanira Krenak


Para Ailton Krenak:

Samarco: Um raio súbito que se abateu sobre a nossa aldeia, sobre as vidas e a memória desse povo que vive à margem do Rio.

Barragem de Fundão: Um lugar muito distante e remoto, mas que afetou o nosso dia a dia nos últimos dois anos de uma maneira decisiva para o futuro.

Crime Ambiental:
Uma ideia de abismo, que não tem resposta, sem eco.

Desastre Ambiental: Um grito na paisagem.

Poder:
Uma coisa monolítica. Um bloco obscuro.

Ailton Krenak

“É uma luta da vida inteira, defendendo, tentando fazer com que as pessoas aprendam a ver com o olhar do povo indígena estes rios, estas florestas, montanhas que vêm sendo devoradas pela mineração e garimpo”.



MUDANÇAS COM O ROMPIMENTO

“A rotina, o cotidiano. Acabaram as saídas de casa para ir ao Rio mergulhar, tomar banho, lavar roupa, cozinhar, pescar, sentar e buscar água.

Começou o caminhão pipa, a privação, a falta de perspectiva em relação ao dia de amanhã, ao futuro.
Começou a aflição das pessoas sobre onde e como viver sem o Rio. Os animais que antes podiam circular, agora estão confinados, precisam ser atendidos por veterinários e receber ração de fora. Não tem mais agricultura.

Uma cerca de 19 quilômetros separa o corpo do Rio das casas, da vila e das pessoas, que estão confinadas em uma paisagem em suspenso.

Mais de cem famílias de uma hora para outra ficaram penduradas em uma pergunta: quem é que vai pagar por isso?”



“Eu não tenho dúvidas de que o Rio tem mais capacidade de resistir do que os viventes da beira dele. Daqui a trinta, cinquenta, cem anos, ele pode ter conseguido fazer a sua autolimpeza, mas a vida das pessoas que vivem ao longo dos 650 km de extensão dele, os pescadores, as tartarugas marinhas… eles vão ficar afetados por muito tempo e talvez a recuperação não seja igual ao do corpo do Rio.”